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Dados de vendas de Natal expõem cisão entre lojistas

Thiago Copetti, com agência

A rápida divulgação sobre como teriam sido as vendas de Natal, feita apenas um dia após a data festiva e com índice elevado demais, segundo um grupo de empresários, chamou a atenção para uma divisão no setor varejista. A polêmica surgiu no sábado (28), após a Associação Brasileira dos Lojistas Satélites (Ablos) divulgar nota à imprensa afirmando que “contesta e repudia” os dados publicados com destaque pela Associação Brasileira de Lojistas de Shoppings (Alshop) de que as vendas de Natal em 2019 seriam 9,5% superiores ao ano passado.

A Ablos, que não tem pesquisa própria que apure o desempenho das vendas, trabalha apenas com uma sondagem entre os associados, em que 70% afirmaram que as vendas natalinas de 2019 foram iguais ou piores do que as de 2018, enquanto só 30% disseram que as vendas melhoraram. Ao se defender dos questionamentos sobre a metodologia utilizada, a Alshop acabou se envolvendo em outra polêmica por indicar que o estudo havia sido realizado em parceria com o Ibope, como consta inclusive em seu site. O Ibope, sem citar explicitamente a Alshop, publicou em seu site que “O Ibope Inteligência não realizou pesquisa sobre o crescimento das vendas em shoppings durante o período de Natal”.

Presidente do Conselho Nacional de Lojistas em Shoppings Centers e Entidades (Conecs) e do Sindilojas-RS, o gaúcho Paulo Kruse se une ao coro dos críticos da divulgação da Alshop. A entidade seria presidida “há muitos anos pela mesma pessoa”, como diz Kruse, sem citar o nome de Nabil Sahyoun, e que não tem mais apoio dos lojistas.

“Ele divulgou algo em um tempo que nitidamente não daria para se ter feito um levantamento. Não houve uma pesquisa. Ele divulgou ao seu bel prazer”, critica Kruse.

O presidente do Sindilojas-RS opina que a “pressa” em divulgar rapidamente um percentual de crescimento de vendas seria apenas para que a entidade fosse a primeira a divulgar algo e assim ganhar espaço na mídia. Kruse avalia que o comportamento acabou trazendo à tona a atual falta de representatividade da Alshop, que teria “decaído muito nos últimos anos”.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, cita Kruse, levantamento com 200 lojistas entre os dias 25 e 26 de dezembro pelo Sindilojas apontou alta de 4,2% nos negócios. O percentual é nominal, o que desconsidera a inflação.

“Se formos levar em conta uma inflação de cerca de 3%, a alta é de 1,2%, portanto bem possível e real. Em Belo Horizonte, foi de 1,7%. A Ablos trabalha com 2,7%. Então, os números da Alshop estão dissonantes de todo o resto”, defende o também presidente Conecs.

Tito Bessa Júnior, presidente da Ablos e da rede de moda TNG, disse que a pesquisa da Alshop “é fake news”, e que estaria gerando “desconforto e revolta entre os lojistas”. Bessa avalia que apesar de o setor ter realmente se preparado para um Natal melhor do que nos anos anteriores, isso não teria ocorrido.

Conselheiro e fundador da Associação Gaúcha para desenvolvimento do Varejo (AGV), Vilson Noer evita críticas diretas à Alshop, mas também reforça que um levantamento feito em tão pouco tempo poderia apontar uma tendência, mas não vendas efetivamente feitas. Em apenas um ou dois dias após a data, diz Noer, nem os próprios lojistas já sabem exatamente o desempenho que tiveram em relação ao ano passado.

“E em tão pouco tempo apontar que lojistas tiveram alta nas vendas é no mínimo um risco. Ainda mais com realidades tão distas dentro do País. Esses dados confirmados vão surgir no final do mês ou apenas em janeiro”, esclarece Noer.

Em nota, a Alshop rebateu as críticas e afirmou que a pesquisa é feita por amostragem e que o crescimento de 9,5% nas vendas de Natal é nominal, sem descontar a inflação, e que diferentes entidades de representação do comércio apresentam dados que corroboram sua estatística.

Fonte:  Jornal do Comércio